Decomposição do VCMH: internação, exames e terapias, onde está o custo

Resumo executivo
- O VCMH composto do mercado de saúde suplementar foi de 6,83% em 2024, segundo dados públicos da ANS processados pelo Observatório Axenya.
- Internação é a categoria de maior peso (48% do valor total), com R$ 127,5 bilhões em 2024 e ticket médio de R$ 14.018 por evento.
- Exames complementares respondem por R$ 54 bilhões e 1,18 bilhão de procedimentos, com custo por exame subindo 9,2%.
- Terapias apresentam o maior crescimento de custo unitário: +34,3% no ticket médio, de R$ 325 para R$ 437 por sessão.
- A decomposição revela que o reajuste não é uniforme: cada categoria tem driver diferente (frequência ou custo), o que muda completamente a estratégia de gestão.
Neste artigo
- O que é VCMH e por que decompor
- As seis categorias do VCMH
- Internação: o maior peso
- Exames complementares: volume e custo
- Terapias: o maior crescimento de custo unitário
- Consulta eletiva, pronto-socorro e ambulatorial
- Como usar a decomposição na gestão
- Série histórica 2020-2024
O que é VCMH e por que decompor
O VCMH (Variação dos Custos Médico-Hospitalares) é o principal indicador de inflação médica do mercado de saúde suplementar brasileiro. Ele mede quanto cresceu o custo assistencial por beneficiário entre dois períodos, considerando frequência de uso e custo por procedimento. Para entender o contexto maior, consulte sinistralidade em planos de saúde empresariais: guia completo.
O problema de olhar apenas o número consolidado é que ele esconde dinâmicas completamente diferentes. Um VCMH de 6,83% pode vir de internações mais frequentes, de exames mais caros, de terapias com ticket explodindo ou de consultas em queda. Cada cenário exige uma resposta de gestão diferente.
A decomposição do VCMH por categoria assistencial é a ferramenta que permite ao CFO e ao gestor de RH entender onde o custo está crescendo e por qual razão. Sem ela, a negociação de reajuste acontece no escuro.
Os dados apresentados neste artigo são públicos, extraídos do Sistema de Informações de Produtos (SIP) da ANS e processados pelo Observatório Axenya. Eles cobrem o mercado de saúde suplementar brasileiro com 50,7 milhões de beneficiários em 2024.
As seis categorias do VCMH
A ANS organiza os eventos assistenciais em seis categorias MECE (mutuamente exclusivas e coletivamente exaustivas). Cada uma tem peso diferente no custo total e dinâmica própria de crescimento:
| Categoria | Valor 2024 (R$ bi) | Peso no total | VCMH 2024 | Driver principal |
|---|---|---|---|---|
| Internação | R$ 127,5 bi | 48,0% | 1,96 p.p. | Custo por evento (+5,5%) |
| Exames Complementares | R$ 54,1 bi | 19,3% | 1,84 p.p. | Custo por exame (+9,2%) |
| Terapias | R$ 29,6 bi | 10,2% | 1,37 p.p. | Custo unitário (+34,3%) |
| Ambulatorial | R$ 25,3 bi | 9,7% | 0,18 p.p. | Frequência (+2,4%) |
| Consulta Eletiva | R$ 25,3 bi | 9,1% | 0,82 p.p. | Custo por consulta (+7,1%) |
| Pronto-Socorro | R$ 11,1 bi | 3,7% | 0,67 p.p. | Frequência (+7,1%) |
Fonte: dados públicos da ANS (SIP), processados pelo Observatório Axenya. Referência: 2023 vs 2024, mercado nacional.
Internação: o maior peso
Internação é a categoria que mais pesa no VCMH, respondendo por quase 48% do valor total assistencial do mercado. Em 2024, o mercado registrou 9,1 milhões de internações, com valor total de R$ 127,5 bilhões.
O ticket médio por internação foi de R$ 14.018 em 2024, contra R$ 13.286 em 2023, crescimento de 5,5%. A frequência, por outro lado, caiu levemente: de 0,182 internações por beneficiário ao ano (PMPY) para 0,179, queda de 1,3%.
Isso significa que o driver de custo em internação é o valor por evento, não o volume. Cada internação está custando mais. As razões incluem procedimentos mais complexos, maior uso de tecnologia hospitalar e pressão inflacionária sobre insumos e mão de obra médica.
O que isso significa para a gestão
Reduzir o custo de internação exige duas frentes simultâneas. A primeira é evitar internações evitáveis, especialmente de pacientes crônicos descompensados que chegam ao hospital por falta de acompanhamento ambulatorial. A segunda é auditar o custo por internação, verificando se os procedimentos cobrados correspondem ao que foi realizado.
Empresas com gestão ativa de crônicos conseguem reduzir a taxa de internação em 15% a 25%, segundo dados do IESS. Em uma carteira de 500 vidas com PMPY de 0,18, isso representa 13 a 22 internações evitadas por ano, economia de R$ 182 mil a R$ 308 mil.
Exames complementares: volume e custo
Exames complementares são a categoria de maior volume: 1,18 bilhão de procedimentos em 2024, com valor total de R$ 54,1 bilhões. O ticket médio por exame foi de R$ 45,67, crescimento de 9,2% sobre os R$ 41,83 de 2023.
A frequência cresceu apenas 0,3% (de 23,26 para 23,33 exames por beneficiário ao ano), o que indica que o crescimento de custo veio principalmente da inflação dos exames, não do aumento de utilização.
O custo mensal por beneficiário (PMPM) em exames foi de R$ 88,81 em 2024, contra R$ 81,09 em 2023, alta de 9,5%.
Auditoria de exames: onde está o desperdício
Estudos do setor indicam que 20% a 30% dos exames solicitados em planos de saúde são redundantes ou desnecessários. A auditoria de fatura em exames complementares é uma das ações de maior retorno imediato para empresas com carteiras acima de 200 vidas.
Além disso, a negociação de rede credenciada para exames de alto custo (imagem, anatomia patológica, genética) pode gerar economia de 15% a 40% sobre o valor de tabela, sem reduzir a qualidade do atendimento.
Terapias: o maior crescimento de custo unitário
Terapias é a categoria com o maior crescimento de custo unitário no período. O ticket médio por sessão saltou de R$ 325,54 em 2023 para R$ 437,07 em 2024, alta de 34,3%. Ao mesmo tempo, a frequência caiu 15,6% (de 1,58 para 1,34 sessões por beneficiário ao ano).
O valor total da categoria foi de R$ 29,6 bilhões em 2024, com VCMH de 1,37 pontos percentuais, o terceiro maior impacto entre as seis categorias.
A combinação de frequência em queda e custo unitário em alta sugere substituição de modalidades terapêuticas mais baratas por procedimentos mais caros. A expansão do rol de cobertura obrigatória da ANS, que incluiu novas terapias a partir de 2022, é um fator relevante nessa dinâmica.
Terapias e saúde mental: o novo driver
Parte do crescimento em terapias está relacionada ao aumento de demanda por saúde mental. Psicoterapia, psiquiatria ambulatorial e terapias ocupacionais cresceram significativamente após a pandemia. O custo médio de uma sessão de psicoterapia coberta pelo plano é substancialmente maior do que uma consulta clínica, o que explica parte da inflação de ticket nessa categoria.
Para empresas com alta prevalência de afastamentos por saúde mental, o investimento em programas de prevenção e suporte psicológico pode reduzir o custo de terapias ao longo do tempo, ao evitar que casos leves evoluam para tratamentos prolongados e caros.
Consulta eletiva, pronto-socorro e ambulatorial
Este é um dos aspectos mais relevantes para empresas que buscam resultados concretos em gestão de saúde corporativa. A experiência do mercado mostra que as organizações mais bem-sucedidas compartilham uma característica: tomam decisões baseadas em dados, não em intuição.
Na prática, isso significa ter visibilidade sobre os indicadores certos, na frequência certa, com o nível de detalhe que permite ação. Relatórios trimestrais genéricos não são suficientes, o gestor precisa de informações que permitam identificar tendências antes que se tornem problemas.
O investimento em estruturar essa capacidade analítica se paga rapidamente. Segundo benchmarks do setor, empresas com gestão orientada por dados reduzem custos com saúde em 15% a 25% em 18 meses, sem cortar benefícios dos colaboradores.
Consulta eletiva
Consulta eletiva registrou 214,5 milhões de eventos em 2024, com valor total de R$ 25,3 bilhões. O ticket médio cresceu 7,1% (de R$ 110,06 para R$ 117,87). A frequência subiu levemente, de 4,16 para 4,23 consultas por beneficiário ao ano. O VCMH da categoria foi de 0,82 ponto percentual.
Pronto-socorro
Pronto-socorro é a categoria com maior crescimento de frequência: +7,1% entre 2023 e 2024 (de 64,7 para 69,6 milhões de atendimentos). O custo por atendimento também subiu 10,4% (de R$ 144 para R$ 159). O VCMH foi de 0,67 ponto percentual.
O crescimento de PS é um sinal de alerta. Atendimentos de pronto-socorro evitáveis, especialmente de pacientes crônicos sem acompanhamento adequado, são um dos principais drivers de custo em carteiras mal gerenciadas. Cada atendimento de PS custa em média 1,4 vez mais do que uma consulta eletiva equivalente.
Ambulatorial
Ambulatorial foi a única categoria com VCMH positivo mas custo unitário em queda: o ticket médio caiu 0,5% (de R$ 126,07 para R$ 125,38), enquanto a frequência cresceu 2,4%. O VCMH foi de apenas 0,18 ponto percentual, o menor entre as seis categorias. Isso indica que o ambulatorial está funcionando como substituto eficiente de atendimentos mais caros.
Como usar a decomposição na gestão
A decomposição do VCMH transforma um número abstrato em um mapa de ação. Para cada categoria, existe uma resposta de gestão diferente:
- Internação com custo crescente: auditoria de fatura hospitalar, gestão de crônicos para evitar internações evitáveis, negociação de contratos com hospitais de referência.
- Exames com inflação de ticket: auditoria de exames redundantes, negociação de rede para exames de alto custo, protocolos de solicitação baseados em evidência.
- Terapias com custo unitário explodindo: revisão de cobertura de terapias de alto custo, programas de saúde mental preventivos, auditoria de sessões por paciente.
- Pronto-socorro com frequência crescente: gestão de crônicos, ampliação de acesso ambulatorial, triagem de urgência para direcionar casos leves para consulta eletiva.
Empresas que conhecem a decomposição do VCMH da sua carteira chegam à mesa de renovação com argumentos técnicos. Aquelas que não conhecem aceitam o reajuste de mercado sem contestação.
Para acompanhar a decomposição do VCMH da sua operadora com dados públicos da ANS, acesse o Observatório Axenya. A ferramenta permite comparar categorias, ver a série histórica e identificar desvios em relação ao mercado.
Série histórica 2020-2024
A evolução do custo por categoria entre 2020 e 2024 revela tendências estruturais importantes:
| Categoria | PMPM 2020 | PMPM 2023 | PMPM 2024 | Crescimento 4 anos |
|---|---|---|---|---|
| Internação | R$ 146,60 | R$ 201,30 | R$ 209,55 | +42,9% |
| Exames | R$ 55,98 | R$ 81,09 | R$ 88,81 | +58,6% |
| Terapias | R$ 25,38 | R$ 42,91 | R$ 48,65 | +91,7% |
| Consulta Eletiva | R$ 27,50 | R$ 38,11 | R$ 41,54 | +51,1% |
| Pronto-Socorro | R$ 8,44 | R$ 15,37 | R$ 18,18 | +115,4% |
| Ambulatorial | R$ 25,19 | R$ 40,88 | R$ 41,63 | +65,3% |
Fonte: dados públicos da ANS (SIP), processados pelo Observatório Axenya. PMPM = custo mensal por beneficiário.
O crescimento de pronto-socorro (+115% em quatro anos) e terapias (+92%) é muito superior ao crescimento de internação (+43%), que historicamente era o principal driver de custo. Isso indica uma mudança estrutural no perfil de utilização do mercado de saúde suplementar.
Para gestores de saúde corporativa, essa tendência reforça a importância de programas de saúde mental (para conter terapias) e de acesso ambulatorial facilitado (para reduzir PS). Ambas as frentes têm retorno mensurável no VCMH da carteira.
Acesse o Observatório Axenya para explorar a decomposição completa e interativa, com dados atualizados da ANS e comparação por operadora.
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