Afastamento por saúde mental: 6 custos ocultos que o RH não calcula (2026)

Resumo executivo
- O Ministério da Previdência Social registrou 288 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025, alta de 38% em relação a 2022. Esse número representa apenas os afastamentos que chegaram ao INSS, com duração superior a 15 dias.
- A duração média de um afastamento por transtorno mental é de 196 dias, segundo o INSS, mais do que o dobro da média de outros afastamentos (90 dias).
- Pesquisa da CartaCapital publicada em abril de 2026 revelou que 15% dos trabalhadores brasileiros tiveram pensamentos suicidas em 2025, indicando que o problema está muito além dos casos que chegam ao afastamento formal.
- Para uma empresa de 300 vidas com 5 afastamentos por saúde mental por ano, o custo total dos 7 itens deste artigo supera R$ 600.000 por ano, valor que raramente aparece em nenhum relatório de RH.
- A maioria das empresas contabiliza apenas o salário dos dias afastados. Os outros 6 custos ficam invisíveis, distribuídos entre folha, plano de saúde, jurídico e reputação.
Neste artigo
- O cenário dos afastamentos por saúde mental no Brasil
- Custo 1: substituição temporária
- Custo 2: queda de produtividade da equipe
- Custo 3: presenteísmo pré-afastamento
- Custo 4: impacto na sinistralidade do plano de saúde
- Custo 5: turnover pós-retorno
- Custo 6: risco jurídico e trabalhista
- Custo 7: dano à reputação e ao recrutamento
- Cenário financeiro: 300 vidas, 5 afastamentos por ano
- O custo da prevenção versus o custo do afastamento
- Fontes e referências
O cenário dos afastamentos por saúde mental no Brasil
Os transtornos mentais se tornaram a principal causa de afastamento de longa duração no Brasil. Em 2025, o Ministério da Previdência Social registrou 288 mil benefícios por incapacidade concedidos por transtornos mentais e comportamentais, alta de 38% em relação a 2022. Depressão, ansiedade e burnout respondem pela maior parte desses casos. Para entender o contexto maior, consulte guia de PGR e riscos psicossociais.
Esse número, porém, subestima o problema. Ele conta apenas os afastamentos que chegaram ao INSS, ou seja, aqueles com duração superior a 15 dias. Os afastamentos de até 15 dias, pagos diretamente pela empresa, não entram nessa estatística. Estimativas do setor indicam que para cada afastamento que chega ao INSS, há pelo menos 3 a 5 afastamentos curtos que ficam invisíveis nos dados públicos.
A Organização Mundial da Saúde projeta que a depressão será a principal causa de incapacidade global até 2030, superando doenças cardiovasculares e cânceres. No Brasil, o cenário é agravado por um dado alarmante: uma pesquisa publicada pela CartaCapital em abril de 2026 revelou que 15% dos trabalhadores brasileiros tiveram pensamentos suicidas em 2025, indicando que o sofrimento mental está muito além dos casos que chegam ao afastamento formal.
Para o gestor de RH, o desafio é duplo: cuidar das pessoas e justificar o investimento em prevenção para a diretoria. Este artigo apresenta os 7 custos ocultos do afastamento por saúde mental, com dados concretos para cada um, e um cenário financeiro que torna o custo total visível.
Custo 1: substituição temporária
Quando um colaborador se afasta por transtorno mental, alguém precisa cobrir suas funções. Esse custo raramente aparece no relatório de afastamentos, mas é real e mensurável.
A substituição pode ser feita de duas formas. A primeira é a redistribuição interna: as tarefas do colaborador afastado são distribuídas entre os membros da equipe. Essa solução tem custo direto baixo, mas gera sobrecarga nos demais colaboradores, o que aumenta o risco de novos afastamentos por esgotamento. A segunda é a contratação temporária: a empresa contrata um profissional temporário para cobrir o período de afastamento. O custo direto varia de R$ 3.000 a R$ 12.000 por mês, dependendo do cargo e da especialização.
Para um afastamento de 196 dias (a duração média por transtorno mental, segundo o INSS), o custo de substituição temporária fica entre R$ 19.600 e R$ 78.400, dependendo do cargo e da forma de substituição escolhida. Esse custo não aparece na folha de ponto do colaborador afastado, mas está distribuído entre horas extras da equipe, custo do temporário e queda de produtividade durante a transição.
Custo 2: queda de produtividade da equipe
A ausência de um membro da equipe afeta a produtividade de todos os outros. Estudos de psicologia organizacional mostram que equipes que perdem um membro por afastamento têm queda de produtividade de 15% a 25% nos primeiros 30 dias, até que a redistribuição de tarefas se estabilize.
Esse impacto vai além da redistribuição de tarefas. A ausência de um colega por motivo de saúde mental gera ansiedade nos demais membros da equipe, que se perguntam se o mesmo pode acontecer com eles. Pesquisas de clima organizacional mostram que equipes que vivenciam afastamentos por saúde mental têm queda de engajamento de 10% a 20% nos 3 meses seguintes ao afastamento.
Para uma equipe de 8 pessoas com salário médio de R$ 6.000, uma queda de 20% na produtividade por 30 dias representa R$ 9.600 em produtividade perdida. Se o afastamento dura 196 dias e a queda de produtividade se mantém em 10% durante todo o período (após a estabilização inicial), o custo total de produtividade perdida pela equipe chega a R$ 31.360.
Custo 3: presenteísmo pré-afastamento
Este é o custo mais invisível de todos. O presenteísmo ocorre quando o colaborador está fisicamente presente no trabalho, mas com capacidade de produção reduzida por problemas de saúde. No caso dos transtornos mentais, o presenteísmo pode durar meses antes do afastamento formal.
Estudos clínicos mostram que colaboradores com depressão não tratada têm produtividade entre 30% e 50% abaixo do normal durante os meses que antecedem o afastamento. Para um colaborador com salário de R$ 6.000 e produtividade 40% abaixo do normal por 4 meses antes do afastamento, o custo do presenteísmo é de aproximadamente R$ 9.600 em produtividade perdida, sem que a empresa tenha nenhum registro formal desse custo.
Um dado que reforça a escala do problema: uma análise de carteiras corporativas identificou que 51,6% dos colaboradores com ansiedade diagnosticada não estavam em tratamento adequado. Isso significa que mais da metade dos colaboradores com transtorno mental diagnosticado estão em presenteísmo, gerando custo invisível para a empresa todos os dias.
Custo 4: impacto na sinistralidade do plano de saúde
Nos meses que antecedem o afastamento formal, o colaborador com sofrimento mental tende a usar o plano de saúde de forma intensa e fragmentada: consultas com clínico geral para queixas físicas inespecíficas (insônia, dores de cabeça, problemas gastrointestinais), exames laboratoriais e de imagem sem achados conclusivos, e encaminhamentos para especialistas que não resolvem o problema de base.
Esse padrão de uso, chamado de presenteísmo clínico, eleva a sinistralidade da carteira antes mesmo do afastamento formal. A ANS registrou sinistralidade média de 82,2% nos planos coletivos empresariais no quarto trimestre de 2024. Carteiras com alta prevalência de transtornos mentais não tratados tendem a ter sinistralidade acima dessa média.
O impacto financeiro é duplo: o custo direto do uso intensivo do plano (consultas, exames, medicamentos) e o impacto indireto no reajuste anual, que é calculado com base na sinistralidade apurada. Para uma carteira de 300 vidas com ticket médio de R$ 500, cada ponto percentual de sinistralidade representa R$ 18.000 por ano em prêmio. Um aumento de 3 pontos na sinistralidade por causa de transtornos mentais não tratados representa R$ 54.000 a mais no prêmio anual.
Custo 5: turnover pós-retorno
Colaboradores que retornam de afastamento por transtorno mental têm probabilidade significativamente maior de pedir demissão nos 12 meses seguintes. Estudos de saúde ocupacional indicam que mais de 50% dos colaboradores que retornam de afastamento por saúde mental não completam 12 meses na empresa após o retorno. Um programa de retorno ao trabalho estruturado pode reduzir significativamente essa taxa.
A pesquisa do Gallup reforça esse dado: trabalhadores com burnout corporativo têm 2,6 vezes mais probabilidade de deixar o emprego do que trabalhadores sem sinais de esgotamento. Mesmo após o tratamento e o retorno, a relação com o ambiente de trabalho que gerou o adoecimento muitas vezes permanece comprometida.
O custo de substituição de um colaborador varia entre 50% e 200% do salário anual, dependendo do cargo. Para um colaborador com salário de R$ 6.000 e custo de substituição de 100% do salário anual, o turnover pós-retorno representa um custo adicional de R$ 72.000 sobre o custo já contabilizado do afastamento.
Custo 6: risco jurídico e trabalhista
Colaboradores afastados por transtorno mental têm proteção legal que gera risco jurídico para a empresa. A Súmula 443 do Tribunal Superior do Trabalho presume discriminatória a dispensa de empregado portador de doença grave que cause estigma ou preconceito, o que inclui transtornos mentais como depressão e ansiedade grave.
Na prática, isso significa que a empresa não pode demitir um colaborador durante o afastamento por transtorno mental sem risco de ação trabalhista por dispensa discriminatória. Mesmo após o retorno, a demissão nos 12 meses seguintes pode ser questionada judicialmente se o colaborador demonstrar que o motivo real foi o histórico de afastamento por saúde mental.
O custo de uma ação trabalhista por dispensa discriminatória inclui: honorários advocatícios (R$ 5.000 a R$ 20.000), indenização por danos morais (R$ 10.000 a R$ 50.000, dependendo do caso) e eventual reintegração ao emprego com pagamento de salários retroativos. O custo médio de uma ação trabalhista por dispensa discriminatória no Brasil fica entre R$ 30.000 e R$ 80.000, incluindo honorários e indenizações.
Além do risco de ação individual, empresas com histórico de afastamentos por saúde mental mal gerenciados podem ser autuadas pelo Ministério do Trabalho por descumprimento da NR-1 e riscos psicossociais, que desde 2025 exige a identificação e o controle de riscos psicossociais no ambiente de trabalho. As multas por descumprimento da NR-1 variam de R$ 2.000 a R$ 100.000, dependendo da gravidade e da reincidência.
Custo 7: dano à reputação e ao recrutamento
O sétimo custo é o mais difícil de quantificar, mas pode ser o mais duradouro. Empresas com histórico de afastamentos por saúde mental mal gerenciados sofrem dano à reputação como empregador, o que dificulta o recrutamento de talentos e aumenta o custo de atração.
Plataformas como Glassdoor e LinkedIn tornaram a reputação das empresas como empregadoras mais transparente do que nunca. Avaliações negativas relacionadas a ambiente de trabalho tóxico, sobrecarga e falta de suporte à saúde mental afetam diretamente a taxa de conversão de candidatos qualificados.
A Organização Mundial da Saúde projeta que a depressão será a principal causa de incapacidade global até 2030. Profissionais qualificados, especialmente das gerações mais jovens, pesquisam ativamente a reputação das empresas em saúde mental antes de aceitar uma oferta. Empresas com histórico negativo nessa área precisam oferecer salários 10% a 20% acima da média para atrair os mesmos perfis que empresas com boa reputação atraem com salários de mercado.
Para uma empresa que contrata 30 profissionais por ano com salário médio de R$ 8.000, um prêmio de 15% para compensar a reputação negativa representa R$ 432.000 por ano em custo adicional de folha, sem contar o custo de processos seletivos mais longos e taxas de rejeição de ofertas mais altas.
Cenário financeiro: 300 vidas, 5 afastamentos por ano
Com base nos 7 custos descritos acima, é possível construir um cenário financeiro para uma empresa de 300 vidas com 5 afastamentos por saúde mental por ano.
Premissas do cenário:
- 300 colaboradores, salário médio de R$ 6.000
- 5 afastamentos por transtornos mentais por ano, duração média de 196 dias cada
- Equipes de 8 pessoas em média, com redistribuição interna durante o afastamento
- Ticket médio do plano de saúde: R$ 500/vida/mês
- Taxa de turnover pós-retorno: 50% dos colaboradores afastados
| Custo | Cálculo | Custo por afastamento | Custo total (5 afastamentos) |
|---|---|---|---|
| 1. Substituição temporária | Redistribuição interna + horas extras, 196 dias | R$ 25.000 | R$ 125.000 |
| 2. Queda de produtividade da equipe | 10% de queda em equipe de 8, 196 dias | R$ 31.360 | R$ 156.800 |
| 3. Presenteísmo pré-afastamento | 40% de queda por 4 meses antes do afastamento | R$ 9.600 | R$ 48.000 |
| 4. Impacto na sinistralidade | +3 pp na sinistralidade, 300 vidas, R$ 500/vida | Distribuído na carteira | R$ 54.000/ano |
| 5. Turnover pós-retorno | 50% não completam 12 meses, custo 100% salário anual | R$ 36.000 | R$ 90.000 |
| 6. Risco jurídico | Custo médio de ação trabalhista por dispensa discriminatória | R$ 15.000 (provisionado) | R$ 75.000 |
| 7. Dano à reputação | Prêmio salarial de 10% em 10 contratações/ano | Distribuído nas contratações | R$ 96.000/ano |
| Total | R$ 644.800/ano |
Cenário ilustrativo com premissas declaradas. Valores baseados em dados INSS (2025), Gallup (2023), OMS (2022), ANS (2024) e práticas de mercado. Resultados reais variam conforme o perfil da empresa, o cargo dos colaboradores afastados e o contexto jurídico.
O custo total de R$ 644.800 por ano para 5 afastamentos representa R$ 128.960 por afastamento, em média. Esse número raramente aparece em qualquer relatório de RH, porque está distribuído entre folha, plano de saúde, jurídico e reputação, cada um sob responsabilidade de uma área diferente.
"O custo do afastamento por saúde mental não está na folha de ponto. Está distribuído em seis outros lugares que ninguém olha ao mesmo tempo. Quando você soma tudo, o número é sempre maior do que qualquer gestor esperava." Organização Mundial da Saúde, Mental Health in the Workplace, 2022.
O custo da prevenção versus o custo do afastamento
Com o custo total de R$ 644.800 por ano para 5 afastamentos, a pergunta natural é: quanto custaria prevenir esses afastamentos?
Um programa estruturado de saúde mental para 300 colaboradores, com triagem anual, acesso a psicólogos e psiquiatras e gestão de casos, custa entre R$ 150 e R$ 300 por colaborador por ano, ou seja, entre R$ 45.000 e R$ 90.000 por ano para 300 vidas.
Se o programa reduzir os afastamentos em 40% (de 5 para 3 por ano), a economia é de R$ 257.920 por ano (2 afastamentos evitados × R$ 128.960). Sobre um investimento de R$ 90.000, isso representa um retorno de quase 3 vezes o investimento, apenas com a redução de afastamentos. Os ganhos em sinistralidade, turnover e reputação são adicionais.
O ponto mais importante não é o número exato, mas a mudança de perspectiva: saúde mental não é um custo de bem-estar. É um investimento com retorno mensurável, que aparece em pelo menos 7 lugares diferentes no balanço da empresa.
Fontes e referências
- Ministério da Previdência Social: Anuário Estatístico da Previdência Social 2025; dados de benefícios por incapacidade por transtornos mentais.
- Organização Mundial da Saúde (OMS): Mental Health in the Workplace, 2022; projeção de depressão como principal causa de incapacidade global até 2030.
- Gallup: State of the Global Workplace, 2023; Employee Burnout: Causes and Cures, 2023.
- Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS): Dados de sinistralidade Q4/2024.
- CartaCapital: Pesquisa sobre saúde mental dos trabalhadores brasileiros, abril de 2026.
- Tribunal Superior do Trabalho (TST): Súmula 443, dispensa discriminatória de portador de doença grave.
- Ministério do Trabalho e Emprego: NR-1 atualizada, riscos psicossociais, prazo de adequação maio de 2026.
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